Será que as pessoas aceitariam o que você sente?

Se você se sente fechado, ou vê alguém assim, talvez seja por isto.

Um dos maiores desafios meus é de acreditar que poderia ser ouvido.

Talvez seja também de muita gente, de muitos homens, de muitos e muitas em depressão, enfim… tantos se sentindo fechados.

Muitas ansiedades, angústias e dúvidas moram dentro de caixas bem fechadas. A jornada de autoconhecimento e a própria Vida vão despertando e relembrando delas.

Mas, apesar de ser fácil para muita gente se abrir sobre muita coisa, para mim, não é. Quer dizer, às vezes, falo muito, mas escondo o que realmente está me incomodando ou tirando o sono. E nisto, sei que não estou sozinho.

Por quê faço isso? Porque, normalmente, eu não acredito que serei ouvido no que me é mais caro e profundo. Isto é, não acredito que meu ouvinte receberá meu mundo interno de braços abertos, que acreditará em mim, que aceitará a existência do que sinto — sem reservas, sem querer mudar o que ouviu.

Ser ouvido, no fundo, é receber permissão de sentir o que sinto. Quando recebo permissão, começo a acreditar que posso me permitir também.

Vejo que conversar, se conectar, colocar para fora, isto tudo são, na verdade, expressões que usamos buscando permissão pra sentir. Eu não me permito de muitas formas, mas o mais comum é quando sinto culpa pelo que penso, quando me condeno pelo que (acho que) sou. “Eu deveria ser assim, estar assim, ter isso”. Isso sem falar de quando acho que outra pessoa é que deveria ser assim ou assado. Essas projeções costumam ser ainda mais raivosas. E no meu caso, também posso acabar me julgando por essas projeções e me culpando por elas. Pode ficar um ciclo infinito.

É nesse jogo todo que podemos ficar presos. Tudo por não acreditar nessa permissão de sentir. As caixas ficam mais e mais fechadas, apertadas, angustiantes.

Você poderia dizer, “ué, é só falar, se abrir, fazer alguma coisa pra mudar”. Falei em me permitir, certo? Nesse estado, se não me permito, não acredito que serei ouvido. Se eu não gosto do que sinto, quem gostaria? Por isso, a lógica é ficar calado. Tentar resolver sozinho o que “já era pra ter resolvido” ou tentar esquecer, guardar em outro canto de novo.

E assim acho que muitos de nós vivem. Alguns, talvez, com ainda mais frequência que eu. Sei o quanto dói e o quanto parece ser ambíguo.

Consegui abrir muitas coisas ao longo dos anos. Acho que a chave inicial foi a confiança — para então se sentir aceito. Por exemplo, confiar num ouvinte é ter segurança que ele ou ela acolherá sem reservas, sem impor outra visão. Saber que ele aceita seu mundo interno. E quando aceita, é como se dissesse, “você é humano e pode existir assim”. Aí, parece que me permito pensar o mesmo.

E se for possível confiar nisto também, recomendo muito: escrever. No início, eu tinha a neura de que alguém poderia ler meus escritos. No desespero, parece que não dá pra confiar na própria sombra, literalmente. Quando consegui começar, não parei mais — aprendi a confiar. Mas precisei, e muitas vezes ainda preciso, ser ouvido por alguém primeiro até mesmo para começar a escrever sobre o que realmente doí, sobre aquilo de que ainda fujo.

Para quem já ouviu muita gente, abrir meus conflitos mais profundos com alguém ainda é um grande desafio. Ainda justifico que eu é quem devo me aceitar. O que é, no fim das contas, verdade, mas não é de tudo que dou conta ainda. Pois sou humano. E posso pedir ajuda. Este é o lembrete e desafio maior. Estou treinando para não subestimar o poder de minha rede.

Espero que toda e qualquer pessoa possa se abrir. Que todos saibam de tudo que conto aqui, para saber ouvir melhor. E espero ser capaz de me abrir mais, de confiar mais nas pessoas certas, que sim, claro, existem. Que eu possa aceitar que a vida, por meio de outros, possa me dar… vida.

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Ramon BrazNomar — https://medium.com/@ramonbraznomar

One Comment

  1. Isah Araujo
    7 meses ago

    <3 <3

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