O desespero de encontrar o propósito

Lições de uma jornada em desenvolvimento

Eu tinha um desespero enorme em saber o que eu queria fazer na vida. Eu não entendia o que realmente precisava para isso. Me sentia sempre culpado por não fazer alguma coisa agora, ou não ter feito no passado.

Já passou por estas sensações? Por muitos anos? Foi por isso que entrei de cabeça em me conhecer. Acreditava que, entendendo o que havia dentro de mim, isso se conectaria com um propósito.

Enquanto ia me conhecendo, fui percebendo as origens de ações e, principalmente, inações. Percebi que eram questões menores do que eu pensava, mesmo que meu sofrimento fosse grande. Traumas de vida que já passaram, birras que mantive por raiva de alguém… Eram crenças e ideias que não tinha a grandiosidade que eu achava que tinham para atrapalhar minha jornada para meu propósito aqui, agora.

Com os anos, eu começava a me entender melhor, e também saber no que eu poderia contribuir. Ainda assim, uma luta interna sempre me ocorreu: manter-se como está “versus” arriscar.

Uma hora, estou animado com o que quero fazer e aprender, vejo múltiplas possibilidades, uma vontade de expandir. Em outra, quando me penso seguindo essa escolha, me questiono se estou viajando, sonhando muito, e até começo a barganhar com a vida — quase como “se eu me arriscar nisso, é bom que você me dê exatamente o que quero agora!”.

Vira uma gangorra. Normalmente esse segundo lado, com esses questionamentos todos, fala tanto que me perco (daí vem o “sentir-se perdido”). Paraliso. E para eu me justificar, assumo que outras pessoas não dariam o crédito, mesmo se tentasse.

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Sempre me pareceu difícil discernir o que se passa na minha cabeça. Será questionamento saudável? Será viagem cheia de expectativas? Ou talvez sejam ambos, misturados? Por isso, talvez, a angústia — como separar o apoio real e útil da mente dos ruídos incessantes de cobranças internas e externas?

Duas coisas têm me ajudado aqui: voltar para o presente, e explorar essas expectativas.

Pela presença, tenho feito o exercício de meditação diária. Parece me fornecer mais uma âncora para me manter no agora (e mesmo assim, é difícil se manter). Quando estou ali, apesar de uma sensação de aperto no peito, parece diminuir o peso do futuro. Também tenho feito biodança e exercícios físicos.

Sobre as expectativas, lembro especialmente de uma crise durante uma sessão de coaching, para montar um novo trabalho meu. Nós paramos, porque no fundo, eu não queria montá-lo. Descobri que eu queria focar em mim, não queria mais focar no externo, por mais que viessem as cobranças por estar enrolando e por não ter dinheiro. (Por isso, acabei escrevendo sobre parar de ajudar os outros.)

A mensagem era de que, se eu não atendo às minha próprias necessidades, se nem me autorizo, não adianta, parece que meu corpo não quer nada com o futuro.

Ali ficou mais claro para mim o que Eckhart Tolle fala sobre propósitos interno e externo: o negócio é focar primeiro dentro, manter esse foco, e depois olhar para fora. Me autorizar dentro, fazer o que me vem pra fazer comigo mesmo no dia-a-dia, e deixar as ações desenrolarem a partir daí para o externo. Pois costumo focar tanto no externo que saio da minha consciência individual com muita facilidade. Antes, preciso focar no que estou sentindo, no que me passa pelo corpo!

E pra focar em mim e sentir o corpo, precisava achar caminhos para sair das histórias mentais, dos questionamentos infinitos. Me envolver com a “vida lá fora” e me conectar mais com as pessoas foram e são desafios, mas têm me ajudado demais. Encontrar com os outros, em contextos em que me sinto bem, e conhecer novos lugares, fora do que estou acostumado, me tira do mundo das expectativas, paralisias e imaginações.

É verdade que preciso ainda estar atento para saber o que eu estou fazendo por mim e o que estou fazendo pelos outros. Mas “sair do meu mundinho” tem realmente me ajudado.

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Complexo do Monumento Memorial à Batalha de Sutjeska, com floresta e montanha do Vale dos Heróis ao fundo, em Tjentiste, Bósnia e Herzegovina.

“O propósito é por aqui. Bem vindo ao mundo, bem vindo a você mesmo”. (Foto de Nikola Majksner no Unsplash)

Então, decidi fazer do “agir mais, pensar menos” meu novo mantra (por isso escrevi sobre não estar pronto), e passei a usar o “foda-se” para jogar meus medos pro alto sempre que me sinto empacado.

Consegui tomar um pequeno risco: comecei a atender com todo o autoconhecimento que busquei para mim mesmo. Quer dizer, minha própria busca virou ferramenta de trabalho. Por enquanto, faço consultas com astrologia, elementos de Desenho Humano, kin maia, conceitos de constelações e do Pathwork, e tudo o mais que angariei nesta busca.

E estou começando a sentir o que provavelmente tanto queria antes: menos medo em “trabalhar”. Como foquei tanto nestas coisas para ajudar a mim mesmo, me sinto confortável em trabalhar com isso. Mais do que quando tentava imaginar ou inventar algo para o outro, mais do que fazer tudo que ele/ela queira.

Parece que, assim, fica natural atender alguém, aceitar um convite — pois estou ajudando e ensinando algo que também me ajuda e beneficia. Podem ter alguns medos se vou dar conta ou do que é novo, mas fica uma confiança básica, um espaço em que sinto que saberei trabalhar com o que acontecer — pois me interessa resolver. Eu aprendo mais ainda sobre mim mesmo.

O desespero de encontrar propósito é instantaneamente trocado por um espaço em que paro de mastigar e ruminar, e só faço. Passo a confiar na vida, nas possibilidades do agora. Pois agora estou mais conectado com o que EU quero, EU sinto, EU conheço.

Isto é uma questão tanto de tomar a responsabilidade por minhas necessidades, quanto também do meu estado interno. Depois de entender muitos dos meus jogos internos, passei a acreditar que posso escolher e mudar minhas emoções, deixando de ficar à mercê delas, e desejar diariamente o melhor para meu dia.

Esse era o “tomar de rédeas” que me faltava. Com um bom estado interno e pensar no agora, faz muito mais sentido agir a partir daí.

Depois de tanto tempo, mesmo ainda com medos do que pode me faltar no futuro, estou envolvido em alguns trabalhos e me envolvendo com cada vez mais pessoas. Convites para montar equipes estão surgindo, pessoas interessadas em minhas consultas estão vindo, possibilidades parecem se abrir. Otimismo, confiança e até vontade de ser mais disciplinado(!) estão se tornando mais frequentes. Estou aprendendo.

Estou deixando de focar no medo de ser incapaz e no de investir em um trabalho que talvez não dure. Resolvi que vou fazer o que posso fazer agora. E as coisas estão andando. Nem sei até quando, mas foi justamente deixar esta questão de lado que me permitiu fazer o que dá agora.

Agora que olho por mim mesmo, posso enfim desejar que esta minha “sorte” possa também ajudar a muita gente.

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Referências:

  • Muita experiência pessoal, direto na face
  • Ótimos trabalhos com as queridas coach Keli Oliveira e psicóloga Raíssa Oliveira

Livros sobre trabalho e propósito

  • “Descubra seus pontos fortes”, Marcus Buckingham e Donald Clifton
  • “Você sabe atingir seus objetivos?”, Andy Smith
  • “Roadmap — the get-it-together guide for figuring out what to do with your life”, Roadtrip Nation
  • “I could do anything if only I knew what it was”, audiolivro de Barbara Sher
  • “What color is your parachute?”, edição 2012 de Richard Bolles

Livros sobre autoconhecimento e propósito

  • “Não temas o mal”, Eva Pierrakos e Donovan Thesenga
  • “Um novo mundo — O despertar de uma nova consciência”, Eckhart Tolle
  • ”The defining decade — why your twenties matter and how to make the most of them now”, Meg Jay

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Ramon BrazNomar — https://medium.com/@ramonbraznomar

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