2016… O ano do despertar para grande crise: A AUSÊNCIA DE SI MESMO

Estou para escrever esse texto desde junho, sempre protelando, mas parece que com a virada do ano, a grande ficha (ou bigorna) caiu e ele veio em forma de agradecer pelo ano de 2016. E a maioria vai se perguntar: “como assim agradecer esse ano terrível?”. Mas é por aí mesmo, tenho (e temos) muito a agradecer a esse ano, pois ele mostrou a todos diversos lados nossos obscuros para onde não queríamos olhar.

O grande caos externo mundial, nos fez parar para pensar “tem algo de muito errado acontecendo, isso precisa mudar”. E isso está acontecendo por todos os cantos do planeta, muitas vezes, não de uma forma pacifica, justa e equilibrada, e sim de uma forma caótica e turbulenta, baseada no desespero e no medo de não saber onde isso tudo vai dar. Guerras, política, finanças, grandes instituições, mídias, nada escapou dessa grande tsunami que 2016 trouxe desconstruindo velhos paradigmas e mostrando que o foco na ganância, poder e dinheiro traz muita destruição e sofrimento, colocando em risco a raça humana.

Mas além de todo esse caos externo, o ano também foi para mim de muito caos interno. Questionamentos, descobertas, reconstruções, olhar para minhas dores, ficar frágil, a falta de confiança na vida e. em mim mesma, a necessidade extrema de ter tudo sob meu controle… questões que há muito tempo eu evitava e ia varrendo para debaixo do tapete, me mantendo em um modo “seguro” operante desconectada, agressiva, pessimista, intolerante e prepotente. Aqui começam os agradecimentos a 2016, pois ele literalmente puxou esse tapete trazendo a tona toda a “sujeira” que estava acumulada embaixo dele a anos. E quando me vi fragilizada, lidando com minhas dores, dúvidas e incertezas, consegui olhar a minha volta e perceber que várias pessoas estavam vivendo o mesmo processo: encarar a si mesmo genuinamente e lidar com diversas questões antes ignoradas, precisando fazer algo diferente.

Peraí então: se o mundo externo tava um caos e vários mundos internos individuais estavam também passando por essa grande avalanche, uma coisa era reflexo da outra, óbvio! Tentei ir mais além e percebi que, a tal crise que tudo e todos estavam enfrentando tinha um lugar comum, a mesma origem.

O que seria essa grande crise?

Olhando mais cuidadosamente para os fatos externos através desse outro lugar que eu estava, dentro do meu próprio caos, consegui perceber que o grande algoz da história era eu mesma pois não estava presente, consciente, conectada, cuidando de mim mesma e me responsabilizando pelas minhas escolhas. Achei um nome para o tal caos: a grande crise era a ausência de mim mesma.

E como somos todos uma parte do todo, como o caos externo estava tão intenso como o meu caos interno, tudo virado de cabeça para baixo e todos buscando uma nova forma de viver sem saber qual caminho tomar, logo entendi que esse pode ser o maior mal hoje da humanidade, a tal crise de ausência. Parece que é uma resposta inata do ser humano a situações extremas que lhe colocam em um lugar de desconforto (sentir-se perdido, sem rumo, acuado, com a sensação de que precisa de uma mudança drástica), buscar o movimento extremo oposto para sair da tal situação. Está ligado ao sistema primal de alerta de todo ser vivo, mas isso só é eficaz aos que estão presentes e conectados a vida. Além de já ter entendido que ir ao extremo oposto não é o caminho ideal para situações que não envolvem risco iminente de morte, a ausência dormente que nos assola leva ao extremismo, atitude bastante perigosa para a sobrevivência nesse mundo. Isso explica muito das barbaridades que temos visto, pelo menos na minha opinião. As atrocidades das guerras; os crimes de corrupção; os escolhidos para gerir alguns países/estados/cidades nesse momento; querer colocar a culpa no outro de um problema que está tão enraizado dentro de nós que não nos permite agir de forma diferente. Como me coloco no lugar do outro se nem eu mesma consigo estar no meu lugar? Como posso não julgar o outro se não consigo parar de me julgar a todo instante? Como posso querer cuidar e acolher o outro se não faço o mesmo comigo? Como querer mudar coisas do lado de fora se me recuso a tentar mudar algo bem mais simples dentro de mim, minhas atitudes?

Viemos há séculos vivendo com o foco no individual, na sobrevivência pessoal sem pensar muito no outro ou no ecossistema que vivemos. O foco até agora foi no futuro, na segurança, em estarmos bem de vida para termos uma “velhice digna e confortável”. Só esquecemos de um “mísero” detalhe: estar no presente e viver o momento conscientemente. Os fins vem justificando os meios a centenas de anos e a conta uma hora ou outra ia chegar, não tinha outra opção. Fomos nos desconectando de nossas emoções, sentimentos, intuição. Largamos a conexão com a natureza, usando-a indiscriminadamente como se fosse um bem infinito a nossa total disposição. Construímos estruturas sociais e políticas para criar “o nosso lugar ao sol”, ser alguém na vida através de um título ou profissão, remunerados por escala de produção com o foco apenas no lucro e no poder. Buscamos nas instituições religiosas a espiritualidade para tentar achar a solução do lado de fora para algo que nem nós sabíamos exatamente o que era (afinal de contas, a ausência já era tanta que só um milagre poderia trazer algum sentido para a vida). Nossa essência ficou perdida dentro de nós mesmos, substituída por bens materiais, amizades virtuais, muita ocupação com trabalho, entretenimento e coisas que apenas fazem volume, mas não preenchem de verdade.

Resquícios de uma sociedade patriarcal que eliminou tudo que vinha do aspecto feminino nesse mundo? Teorias da conspiração sobre pessoas e povos maus que querem dominar o mundo a qualquer custo? Falta de clareza sobre tudo ser uma coisa só e as partes estão totalmente ligadas e dependentes uma da outra? Mais um ciclo na terra onde é necessária uma grande onda apocalíptica para “limpar” o que está bloqueando o fluxo da vida? São inúmeras teorias e explicações… mas o que está cada vez mais claro (e a física quântica está aí na área das ciências para explicar algo que a filosofia e a espiritualidade sempre disseram) é que nós somos os únicos responsáveis por construir nossa realidade. Precisamos nos conscientizar e nos responsabilizar por nossa vida: se queremos transformar algo ou mudar alguma coisa, comecemos por dentro, por nós mesmos, porque essa é a única forma de realmente fazer alguma coisa.

O que sei é que não teremos mais espaço para o egoísmo, para agir e pensar de uma forma individualista. De novo, é tudo uma coisa só, por mais ausente que estejamos de nós mesmos, para estar vivo aqui nesse mundo você precisa pelo menos de água e ar limpos, assim como todas as outras coisas vivas nesse planeta. Se você ainda acha que é muito diferente do outro, basta lembrar desse “pequeno detalhe” para começar a desmanchar algumas realidades pessoais que construiu sobre você mesmo. E esse é o caminho para muitas soluções que estamos buscando do lado de fora: comece a olhar para quem é você de verdade, a acolher tanto o lado fraco, escuro, ruim quando o lado forte, luz e bom dentro de você, pois aí dentro,também é tudo uma coisa só.

Busque a ajuda necessária para se encontrar dentro de você mesmo, divida com o outro de alguma forma sua experiência, quem sabe mais pessoas possam começar a olhar para esses aspectos ocultos dentro de si. É só a partir dessa consciência e auto responsabilidade que poderemos transformar qualquer coisa, dentro ou fora de nós. Terapias, rodas de conversa, filmes, arte, livros, passeios pela natureza, meditação, exercícios, parar cinco minutos e apenas respirar, seja o que for e possa expandir sua consciência, busque contato verdadeiro consigo e com o outro, é a única coisa que pode nos trazer de volta a presença. Só assim poderemos entrar na era da colaboração e cooperação verdadeiras que necessitamos tanto.

O que posso compartilhar da minha experiência com vocês é isso: tirar da gaveta interna esse texto, contar sobre o presente que foi no natal dar para mim mesma uma pausa, sem agenda, compromissos, obrigações, simplesmente encontrando com amigos queridos e fazendo outros (esse fica para um próximo texto!), visitando lugares deslumbrantes onde pude me sentir totalmente integrada com a natureza e em fluxo com a vida. Posso também dizer que toda essa clareza e coragem de seguir adiante veio de um ano de trabalho árduo: terapia individual e constelação familiar; participar de outros trabalhos em grupo compartilhando a história de outras pessoas e vendo que estamos todos no mesmo barco; seguir em frente apesar do medo e da insegurança trabalhando com o que acredito e faz sentido na minha vida, independente do dinheiro, conectando pessoas e experiências que promovam expansão de consciência; olhar para meus pais do lugar de filha com mais amorosidade e gratidão pela vida que me deram; me aproximar do meu irmão de uma forma genuína, reverenciando toda a sabedoria que ele sempre me trouxe; estar vivendo de uma forma verdadeira e entregue uma relação amorosa com meu companheiro, onde aprendemos todos os dias a respeitar nossa individualidade e o escolher estar juntos por opção, reconhecendo e lidando com as diferenças; poder me conectar com os amigos de um lugar mais frágil, empático e genuíno.

É por tudo isso que tenho só a agradecer a 2016, um ano que trouxe o despertar de inúmeras formas, muitas vezes como na expressão: “se não vem pelo amor, vem pela dor”. Infelizmente para a maioria de nós, o aprendizado só vem na base da porrada mesmo, e esse ano representou essa grande voadora na cara. A notícia boa é que a dor também faz parte e precisa ser olhada, inclusa e reverenciada pois pode promover grandes transformações se a escolha for vivê-la como algo normal do ciclo da vida. O fluxo é esse: está tudo conectado e faz parte dessa existência, se estivermos presentes e conscientes disso, a vida segue seu curso e podemos aproveita-la a cada instante.

Para 2017… vou seguir nesse caminho, continuar olhando para dentro, tentando me acolher, aprendendo a me cuidar e a ter confiança na vida e em mim mesma. Seguirei aberta a todos os aprendizados que essa relação com meu companheiro está me trazendo, aprendendo a amar e ser amada sem romantismo e expectativas. Vou tomar coragem e tirar da gaveta projetos como esse de escrever, quem sabe um canal no youtube mostrando um pouco mais desse mundo das terapias, praticar exercicios e meditação, voltar a atender deixando fluir meu próprio trabalho de integração e reequilíbrio, seguir com os projetos dA Ponte reconhecendo meu potencial de expansão e lembrar no meio de tudo isso de respirar, estar presente, levar a vida com leveza e me divertir também… enfim, ser eu mesma na presença já está de bom tamanho para os próximos 50 anos!

A Ponte é uma ideia, um movimento, um fluxo que apareceu ao surgir a necessidade de conectar pessoas em busca de evolução, por meio do potencial ilimitado da consciência. Promovemos pessoas, acontecimentos, experiências, eventos que contribuam para o autoconhecimento, com ênfase nas áreas da educação, saúde, terapias holísticas e integrativas, trabalho/organizações, arte e cultura. Estamos descobrindo como fazer isso de forma cada vez mais alegre, criativa, inclusiva, colaborativa... Aqui não há estagnação, tudo muda o tempo todo!!!

One Comment

  1. Cristiane
    4 meses ago

    Que texto incrível! Em diversos momentos achei que eu mesma o tivesse escrito… <3

    Reply

Deixe seu comentário